sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Fim


E assim...
não mais que de repente,
esse blog findou.
Sem um verso,
sem uma canção.

domingo, 2 de agosto de 2009

Lígia


Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba não vou a Ipanema
Não gosto de chuva nem gosto de sol

E quando eu lhe telefonei, desliguei foi engano
O seu nome não sei
Esquecí no piano as bobagens de amor
Que eu iria dizer, não ...
Lígia Lígia

Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chopp gelado em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon

E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão, o seu nome rasguei
Fiz um samba canção das mentiras de amor
Que aprendí com você
... Lígia ... Lígia

Você se aproxima de mim
Com esses modos estranhos e eu digo que sim
Mas teus olhos castanhos
Me metem mais medo que um dia de sol
... Lígia ... Lígia

E quando você me envolver
Nos seus braços serenos eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo que um raio de sol
... Lígia ... Lígia


Tom Jobim


(Tela: Abigail, 1947 - Di Cavalcante)

Ipê Amarelo

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Fadista


Onde nasce minhas canções

Onde nasce minha poesia

Lá nasce eu

Lá é mistério meu, tom meu

.

Para onde voltar?

Sinto-me parte de um acorde

E este acorde, o sinto diluir

Me faz querer tornar à morada interior

São os mistérios de lá que me fazem eterno

.

Minha vida escorre nestas letras

Cada palavra escrita

Apaga-se em minha memória

E o que me lê por isso

Me toma e deixo de pertencer-me

Onde me levará o fim desse verso?

.

O vento da profunda noite

Já sopra em minha janela

O silencio desperta o meu coração

Ouço a Musa dos Fados antigos

Como um discípulo devoto

Sento-me aos seus pés e tomo minha craviola

Ela me ensinará canção e dor.

.

.

Hudson Nogueira

Brasília, 13 de julho de 2009


Versos a Francisco

Francisco tornou-se amigo daquele judeu

Por sendas desconhecidas e temidas o seguiu

Desde então a alegria dos amantes está em seu canto

Seus pés correm como os da sulamita dos Cantares:

.

Que amor será como o teu Francisco

O que consome esse fogo aí dentro

Das sandálias, te desfaz

.

O amor vestido num burel e corda dura

Que implacável te fere o lado

Adornado em asas de serafins

Deixa o mundo em ânsia

Do mesmo amor ser ferido

.

Enquanto o amor não vem

Fica-se a desfalecer

Como a mulher nas dores de um parto

.

Oh Francisco quisera suspirar

O incenso do teu amor amado

Que o fogo de dentro faz subir

E impregna cada pedra de tuas paredes

Mas se não posso, pisa com teus pés nus

As estradas dos peregrinos

Brinca conosco a ciranda

.

.

HNS

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora, o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator

É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante

Eu vou lhe dizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A Flor e o Espinho





Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho 
Espinho não machuca a flor

Eu so errei quando juntei minh'alma a sua 
O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha magoa
A minha dor e os meus olhos rasos d'agua 
Eu na sua vida já fui uma flor 
Hoje sou espinho em seu amor


Nelson do Cavaquinho
Boêmio carioca

sexta-feira, 20 de março de 2009

Adélia Prado

"Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda da vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
“não aguento mais”.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca para casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
“Cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas”.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque,
a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde.
Não a palavra.
A coisa."
Adélia Prado

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O Tempo, preocupação d'eu, estrangeiro
Ele me tira aquilo que conheço
E me dá o que ignoro, logo temo
Despe-me como a um infante
*
Contudo sou um estrangeiro
Minhas tendas não mais armadas
Tomo meu turbante
Não me detenho ante a ele
*
Sigo sob ele, sob seus olhos que a tudo tange
Sigo a buscar minha flor azul
Ela há de despertar após o sétimo sol
Na oitava Lua
*
Quando ela se abrir
Tu, Tempo, não mais vencerá sobre os viventes
Então terei minha pátria
Acabará meu exílio e esta peregrinação
*
Minhas tendas nunca mais se fecharão
*
HNS

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Capricórnio

Réia, para proteger o seu filho, Zeus, refugiou-se na ilha de Creta, dando à luz aquele que viria a ser o Pai dos Deuses, escondendo-o numa caverna da ilha, entregando-o aos cuidados das Ninfas.

Para enganar Cronos, Réia enrolou uma pedra em lençóis, levando-a a Cronos, que a devorou, pensando tratar-se do filho. Assim, Zeus cresceu tendo como ama de leite a generosa cabra Amaltéia.

Zeus, ainda criança e brincando com a cabra, sem querer quebrou-lhe o chifre. Assim, como compensação, prometeu-lhe que o chifre sempre se encheria de flores e frutos, dando origem à Cornucópia (corno da abundância). Quando Amaltéia morreu, Zeus a colocou no céu, como a constelação de Capricórnio, em gratidão aos cuidados recebidos.

Capricórnio