quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Vinícius I

"Quem pagará o enterro e as flores se eu morrer de amores?"


Vinícius II


domingo, 26 de outubro de 2008


Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos —

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos —

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor

Uma prece por quem se vai —

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes, poeta na linha direta de Xangô.
Rio de Janeiro, 1960

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Ser exatamente o que sou
Sem ir para a direita e
Nem muito para a esquerda
Sem a máscara imposta e posta
Mas ser sem moldura
Ser água pura
Ser o que se é

Ser sem mentiras
Ser sem retalhos
Porque a mim enfada os mosáicos
Gosto das minhas paredes nuas
Me acalma o reto tom
E as retas longas

Quero a conversa direta, sem parábolas
- como é feia uma parábola -
Os seus altos e baixos traçam a mentira
Me ponho longe dela
- com que violência -
Minhas retas são dardos e flechas

Ser assim
Serenamente
Descubro que
Sou eu
Eu Sou


HNS, Brasília.